sexta-feira, 25 de maio de 2012

Borboletas que não precisam voltar ao mesmo jardim

Terminei de ler um livro, escrito por Jorge Luís Borges em 1949, mas reeditado em 2012 pela Companhia das Letras, "Aleph”, considerado uma das suas melhores obras. Destaco uma das frases que melhor acomoda à aceitação  das coisas perdidas entre infatigáveis imagens da lembrança quando nem mais restam as palavras: “Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias. Mais que um decifrador ou um vingador, mais que um sacerdote do deus, é um encarcerado”.



Outra reflexão, em um segundo trecho, me infundiu em uma espécie de vertigem ao apego: “Essa vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, pois, assim como os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece estes símbolos) ansiamos pela planície interminável que ressoa sob os cascos”.

Lembro-me de uma estória que me foi contada quando criança sobre o motivo do elefante no circo ficar quieto e não se soltar da estaca cravada no solo, mesmo sendo forte. O motivo era elementar, talvez irônico, pois com a força que tinha, poderia derrubar não só a estaca, mas o local inteiro. Todavia, simplesmente, aceitava o seu destino e não escapava porque tinha sido preso à estaca ainda muito pequeno. Talvez, tenha tentando se soltar quando pequeno, mas recuou, pois a estaca era muito pesada. E, assim, amarrado na estaca, aprendeu a esperar eternamente a hora do espetáculo.

Entendo que, assim como o elefante, nos sobra pouca identidade ou desejo de uma vida porque o desapego só acontece contra a vontade e nada escapa a perfeição da lassidão da espera. O que resta é a realidade. Diria uma batalha de desfechos e contradições dispensáveis.

Sempre quando lembro a estória, penso em momentos desnecessários ou revoltas imperfeitas. O apego  é  oco e solitário, pois existe a restrição de ser além do que se é. Recusa-se a simplicidade do amanha. Não existe presente, além dos fatos.

Diria que temos dificuldade a qualquer ato que remonte a desmontagem de uma árvore de natal ou mesmo a renegar a cegueira do amor fantasiado. Na maioria das vezes, vivenciamos relações que não fazem mais sentido, mas ficamos lá como se tudo se bastasse em um balanço patrimonial, segurando as despesas do desentendimento, ampliando as receitas da paciência e esperando o patrimônio liquido da estabilidade. Só enxergamos  o lucro absolutamente necessário.

Somos tão renitentes a estridência inesperada do fim que cerramos os punhos ao sinal de qualquer aviso para limpar o guarda-roupa, andar a fila, procurar um novo emprego, trocar o carro. Nos arrasamos em lágrimas como parodia à nossa teimosia de seguir buscando a possibilidade do sempre para esquecer-se de se despedir. Vive-se da memória do objeto, da terra, da estabilidade, da cultura, do emprego perdido e não se consegue encontrar o próprio destino. E como esquecendo Mario Quintana, não nos lembramos de nos bastar.

Por um lado, é como se estivéssemos colorindo a rotina e limitássemos qualquer possibilidade de enxergar as ondas inesperadas na vida para que seja plenamente possível, viver por um milésimo de segundo a mais. Por outro, essa mania de achar que o outro é a única ou a última esperança, deixa longo o caminho para se acostumar com a ausência, com o luto e  com a reconstrução de uma nova vida.

Quando se apega a algo que só traz intensidade à injustiça das dores passadas, erra-se sem encontrar água, deixando o caminho ao arbítrio do cavalo de terceiro. Abre-se um labirinto com intrincadas e confusas circunstâncias, impossíveis de alcançar a melhor maneira de preencher a existência. Não se trata apenas de encerrar ciclos, mas de sermos incapazes de recuperar o abrigo das cavernas.

Assim, perdem-se o fôlego e a paz quando não se desiste da fixação de parar o vento para manter o outono que ainda não aprendeu a esperar o inverno. Seria como ficar no topo do monte e evitar ceder espaço para noite, com contradições e apegos, não se abrindo ao universo. Bastaria não cruzar ruas que não deveriam ser mencionadas no jornal de ontem, mas por estarmos cansados e despreparados, a dor caminha por uma rua de mão única.

E mesmo quando o amor já está  morto, permanece-se amando querubins no lugar de nos rendermos a verdade de que somos o que temos. Esperamos a volta das borboletas, olhando com o desdém a mariposa, e depois com temor, como se o tempo não pudesse refazer o que perdemos.

De forma verossímil por retratar a dualidade de todos nós, o apego nos inibe perante a busca da plenitude da mudança, descrita na letra da música do Gabriel o Pensador: "Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente."

Somos alérgicos as novas possibilidades, sejam elas, emocionais, pessoais ou funcionais, desconfiamos do genérico da loratadina. Bastaria segurar as emoções do romantismo, não se prendendo aos fragmentos de um passado despedaçado, a uma máquina de escrever enferrujada, a um moletom manchado ou a uma caneta tinteiro.  

Imaginamos até  o novo, mas preferimos gestos mindlinianos, pois preferirmos sermos enganados pelo contrato sob judice a fechar o balanço, a aceitar o som estrondoso do não. 

No final, acreditando em sina, destino ou benção da irrelevância ilusória, procuramos rever o filme com o intuito de notar sinais desapercebidos,  mas nem sempre voltamos à encruzilhada anterior ou desembocamos em outro olhar.

E nessa dificuldade de esperar o próximo instante, não saímos de casa, não deixamos as portas abertas  e a coisa vivida não figura como fantasma, mas espanta o futuro. Fazemos do drama o sentido, da propriedade a certeza e, por mais que tentamos escapar da dúvida, deixamos o próximo passo sem imaginação.

Logo, o apego seria um cárcere profundo. No firmamento do desapego material ou emocional há mudança de pele, pois se descarta o acúmulo das batalhas ainda divididas, mesmo aquelas que não tiveram inscrição de hábito ou se tornaram fraudes. 


Mas, podemos ser titulares do destino e transformar as lavras do coração em borboletas. E sempre lembrar que as borboletas duram no máximo 24 horas, tempo suficiente para o acasalamento de seus ovos, não se alimentando, sendo efêmeras, alias desapegadas. Como disse Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses" .

 E no final do dia que as nossas borboletas não se sintam pressionadas a voltarem, desabrochando de um modo ou de outro, sem dar sobrevida à dor.

Dedico esse post a uma amiga querida, chamada Lu Souza,  do blog  ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br. pela pureza e leveza de alma que me fez muito feliz com uma homenagem na publicação abaixo.
http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/2012/05/as-panteras-detonando-na-blogosfera.html

domingo, 20 de maio de 2012

A pedra que não é preciso carregar


“Absolvição é a mais forte forma de perdão. Perdão total de suspeita e responsabilidade. É a libertação de um futuro roubado. Um futuro que meu pai nunca viverá para viver. Absolvição é a misericórdia que as pessoas que o mataram jamais saberão”. (Emily Thorne na série “Revenge” exibida no Brasil pela Sony)

                                                                Imagem retirada: latitudezero.mercadoshops.com.br       


Na atualidade venho acompanhado “Revenge” que destaca a vingança como centralidade do contexto da trama. No inicio do primeiro capítulo da série, uma frase de Confúcio é destaque: “Antes de embarcar em uma vingança, cave duas covas". A série apresenta a frieza de Emily, motivada pela vingança aos Graysons, à medida que seu pai foi injustamente condenado por um crime de terrorismo que não cometeu. Na trama, Emily cresce atormentada em um orfanato e descobre que seu pai lhe deixou uma herança e um propósito que, posteriormente, são usados como a pedra que irá acompanhá-la durante a caminhada.

Revenge apresenta uma questão que assusta e ao mesmo tempo é íntima do dia-a-dia pela sutileza como a vítima lida com a dor. Após o horror, a injustiça ou a violência, torna possível lembrar-se de esquecer a dor em prol da vingança. Torna possível reinventar-se no campo de concentração ou fingir sobre o que realmente motiva a continuar a viver. Consegue dar razão a vingança como uma ordem suprema.

A vingança é por si só inexplicável; diria um esforço desesperado para levar uma pedra na mochila na subida de uma montanha, machucando as costas e não permitindo espaço para guardar o que realmente importa, seria um peso inútil. Depois da subida, pode ser a pedra não entregue a quem nos magoou, quando este some, tornando a vingança, não só um prato frio, mas uma pedra indigesta.

De um lado, a religião nos impõe a melhor forma de lidar com o ódio por meio do perdão ou  mesmo em  “oferecer a outra face” ou “não pensar nisso”’. Incentiva-nos a não lidar com a memória da dor, ensina a neutralizar o que nos move sem direção, como uma tormenta no verão, como um cavalo sem os arreios. A vingança seria o saque no banco, enquanto o perdão o depósito ou o crédito consignado.

Por outro, a vingança nos corredores do divã tem um importante sintoma catártico, torna uma tese a ser escrita, demanda que a ofensa seja relatada, resgatada e purificada da memória da vítima, exige que alcance a condição de limpar a sala e deixar o desprezo se acomodar ao centro. Seria a superação de si mesmo.

Não acredito em tiro de misericórdia, pois se não lidamos com esse peso, ele ganha vantagem e nos traga para um buraco negro, asfixia e deixa a alma vagar pela eternidade. Lidar com a inércia da vingança, exige matar a própria criação.

Essa é a dificuldade da máscara, pois seria a continuação de se fingir sobre o que incomoda e no lugar de plantar flores, regam-se as pedras. Todavia na vingança, a vítima acaba usando a máscara do vilão e o vilão, se torna o herói. E a partir dessa troca de papeis, o mal se vangloria do bem e a vingança alcança a plenitude no cume da montanha.

Às vezes, perdoar não é fácil e não adianta os mecanismos de defesa ou truques de atenção para evitar a dor. É auto-engano. É a mentira habilidosa. É uma defesa bem-sucedida. Vira um hábito e molda o nosso estilo. É o braço consolador. É a nossa segunda natureza ou segunda pele. É uma manobra de atenção para o que não passa. É o romance de suspense. É a porta entreaberta.

Segundo a mitologia grega, após Poseidon seduzir Medusa, o rancor e a vingança a destrói, permitindo a deusa Atenas transformá-la em um monstro. Medusa seria o certame da mulher rejeitada. Como tal, a vingança levou a tragédia e a solidão, levando-a a fugir para fora de si, petrificando, paralisando e tirando a vida, tornando-se inerte com a determinação de não poder ser vista de frente. E por não conseguir encarar o seu desígnio, sua vingança retirou a condição de amar e ser amada.  Sua vingança é repassada por gerações em filhos que não conseguem perceber a própria imagem no espelho.

Penso na vingança como o limite do olhar angustiante para frente, voltado ao abismo entre dois trapézios. Quando se resolve viver por ela, carrega-se uma tonelada dentro de si, preserva-se o café da manhã e continua na mesa, esperando o jantar, aguardando a sobremesa em um mundo aparente de imagem de desejos gastronômicos. Talvez seja por isso que se atribuía a ela a condição de prato frio. Ela resiste a urgência.

No entanto, percebo, sempre, decadência na vingança. É como se ela sempre estivesse lá, indo aos domingos à igreja, comemorando o natal e esperando chegar à margem do rio, sem molhar os sapatos.  Seria a sensação de falsa plenitude, do poder que emana da alma de um orgulhoso viking que não descansa a melancolia de ser um pirata. Seria um vazio branco, ir até o fim sem contar com ninguém, após as primeiras invasões mercenárias.

Ao seguirmos o ato consumado da vingança, após anos de solidão, a vida não se torna mais feliz do que era antes. Existem dores que não se curam com a vingança, apenas retomam o túnel escuro que fulmina e mata a procura que já era inútil. Ninguém volta à estrada principal quando a primeira marcha é sinônimo apenas de atalho estreito.

Já passei por situações em que entendi que a vingança seria a amiga intima, mas com o passar do tempo, entendi que não é necessário esquecer ou mesmo lembrar em todas as manhãs o fato, bastando andar devagar, retirando o espelho, libertando a dor frente à vantagem de deixar pra trás o sentimento morto. Seria um presságio ao que viria de superior ao meu próprio veneno. Diria que como a Medusa, construímos a nossa própria monstruosidade quando valorizamos revoltas descabidas e sem sentido, não permitindo compreender a dor  e perdoá-la.

Entendo que o luto é impiedoso, acua e nos deixa sem chance, mas alimentá-lo é deixar o efeito dominó alcançar o terreno em que toda gota de lágrima se transforma em uma cachoeira. Nesses momentos, vale à pena lembrar o ditado que não existe noite tão longa que não encontre dia, bem como lembrar que sempre há morfina na porta da dor.

A vingança não se distancia do silêncio talibã ou dos holofotes da Broadway, mas no fundo é um escritório mal iluminado. Seria uma moral de utilidade, mas sem direito a aspiração à "paz de espírito". Seria renunciar à vida quando não se renuncia à guerra. Como diz Nietzsche:" (...) Incapaz de enfrentar o que o cerca, o homem do ressentimento inventa, para seu consolo, o outro mundo". Eu diria que a vingança destrói o próprio mundo.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Por que a culpa é inútil?


“[...] A culpa confere um poder espantoso. E simplifica tudo, não só para os espectadores e vítimas, mas, sobretudo, para os culpados. Ela impõe uma ordem à escória. A culpa ensina uma lição muito clara da qual outras pessoas talvez possam obter consolo: se ao mesmo ela não..., e com isso torna a tragédia evitável. Talvez seja até possível encontrar uma paz muito frágil na aceitação da responsabilidade total [...]”  (Trecho da carta de Evan no Livro "Precisamos Falar sobre o Kevin", da Lionel Shriver).

                                                                          Fonte: Saude.sapo.pt

No final de semana, iniciando a leitura deste livro, após assistir o filme, me deparei com esse trecho que pode ser acomodado como um puzzle ou sudoku da culpa sem sentidos. No livro, a mãe de Kevin aceita o desespero do presente e do massacre na escola como justiça por não ter conseguido amar Kevin após o seu nascimento. Não aceita as reais motivações de Kevin como acerto de contas ao exorcismo de si mesmo e paga perante à sociedade pelos crimes do filho. Prefere à culpa a aceitar que gerou involuntariamente um monstro.

Reconhecer que nem sempre há razões nos atos humanos é menos absurdo que a culpa. Aliás, mais humano, pois a tragédia sempre espelha o fracasso do cotidiano.  Mas, nem sempre é o caminho mais fácil. Maldade, tragédia, tortura, ferocidade, malignidade, erro, tempestade, apenas existem e são idiossincrasias indignamente banais.

Culpa é excelente para um roteiro cinematográfico, mas nem sempre é um bisturi fino para modelar a vida. Seria paradoxalmente irônico, mas posicionar-se de forma reversa não conduz o arrependimento pelas belas palavras e nem sempre há o que fazer para se remediar. Talvez,  fechar o livro e prosseguir sem o amigo imaginário, seria aceitar que a desgraça não tem limites e mora ao lado.

Sempre haverá poeira no tapete ou será impossível fazer um novo Código de Hamurabi para recuar o impulso do agir, mas podemos apesar de sua naturalidade, livrar a culpa do elevado preço à medida que não há confiança no arrependimento, pois às vezes se faz como pura obrigação e ela se torna estéril, insincera. Diria que reconhecer o erro nem sempre permite uma sutil reviravolta para a mudança. Às vezes aprende-se a fingir.

De forma velada, arrepender-se pode ser um receituário de doses paliativas, de medida pontual e temporária, sem provocar  uma intimidade perturbadora contra o mal. Nem sempre a rota de avanços e recuos pode ser um ato de penitência pelo pecado cometido. Permitiria pagar a dívida, desejando a bondade no beijo de Judas a Jesus. Acreditar que o suicídio de Judas enterraria a fraqueza humana e a libertação do anti-herói. Enfim, negligenciar o rosnado de um animal.

Penso que se a culpa fosse útil, após os massacres das guerras mundiais, evitaríamos a destruição em massa e sacramentaríamos a maldade, após as execuções dos tiranos. Mas como cristãos e fidalgos, contemplamos o discurso moral. No lugar de abster-se das palavras, abordamos a ambivalência da dúvida e o refúgio no mundo da fantasia da culpa. E aí o embarque continua se dando em vôos diferentes com o apelo demoníaco para o melô do pecado.

Não banalizo a responsabilidade dos erros, mas compreendo a vertigem da sua permanência, sem alimentar anonimamente a culpa que por si só, já é insuportável. Culpa não ressuscita relação, resgata amizade ou renova a intimidade, culpa só evidencia o empobrecimento do fim ou o equivoco do tropeço.

Se culpar não é uma escolha, como o sapato ou o restaurante, aceitar que não se pode mudar o passado, pode trazer conseqüências reversíveis. Penso que ninguém tem o direito de impor um ritual  para a culpa, se as crises e, eventualmente, as tragédias são inevitáveis.

O caus implica a perda do controle e o resultado do caus é sempre imprevisível. Como tal, é preciso  lidar com as faltas alheias, pois ainda que só fizéssemos coisas únicas e essenciais o tempo todo, a maioria de nos teria que lutar para derrotar o caos com o caos. Logo, percebo o território da culpa no desenvolvimento de uma cultura que idealiza a resolução como uma condição de apaziguamento possível da vida. Seria a felicidade por não discordar e suprimir a qualquer custo, posturas  que conduzem, a andar na contramão.

Sem máscaras religiosas, cedo ou tarde, ainda que não seja o nosso objetivo, seremos arrastados a perceber que a culpa nem sempre gera questões de identidade, mas a normalidade de sermos apenas mais um.  Nesse sentido, seria pura bobagem insistir na automutilação, pois nem sempre a culpa nos muda por dentro, mas com certeza, alimenta o animal selvagem em um rio parado, sem correnteza. Poderia ir ao monte e não enxergar a cidade de cima e a fatalidade do acaso, minimizando o fato de que  permanecem as cicatrizes em uma ou mais das partes do contexto.

Minha percepção é que o ser humano tem um fascínio pela culpa, principalmente em discorrer o seu sentido pela atribuição ao outro.  Quando não tolera o monopólio para si, submete ao outro para chamar atenção. Diria que a culpa é uma reafirmação da nossa personalidade aos fanatismos nascidos do preconceito ao erro.

Desde criança, somos induzidos a acreditar na aceitação da culpa como uma passagem para o céu. Nesse momento de comoção espiritual com a nossa individualidade, ela passa a ser parte do nosso eu, e adormece como uma estranha senhora do destino, aliviando por meio da promessa divina da expiação e da dor  no crescimento humano.

Nos últimos tempos, tenho pensado na tragédia, não como uma coisa previsível que pode ser resolvida, antecipando o conhecimento da culpa. Anteriormente, eu costumava pensar que não imaginar o pior, evitaria o que não deveria acontecer, mas agora não estou mais certa, pois já fui culpada, sem entender em que errei.  Hoje não fico mais me acuando ou pensando até  descobrir o que deu errado. E sem depreciar o destino, espero o que tem que acontecer.

E desse arrebatamento da culpa, o aceitar pode ser uma positividade ou uma aceitação passiva da falta real do controle. Lembrei de Clarisse no conto o "Crime do Professor de Matemática" quando ela revela que há tantas formas de ser culpado e de perder-se para sempre e de se trair e de não se enfrentar. Conduziria a ideia de que o arrependimento pelo crime menor, não levará ao maior ou mesmo ao inferno. Confeccionaria o perdão disfarçado de juízo final.

Vivemos em uma sociedade que a resposta normal é condicionada ao espetáculo de quem é o culpado. Acredita-se que reconhecer a culpa torna o coração menos pesado e traz a sensação de que se fez tudo certo. Diria que nesse entendimento, a culpa torna o pecado uma miragem, uma aparência e não a certeza. Traz libertação, seria punição ao distanciamento da lembrança. 


Seria como mexer nos fios de um secador, depois do primeiro estouro, imaginando que, ainda, é possível se colocar para funcionar só porque os cabelos estão molhados. Seria pensar que doar o vestido de grife usado no Oscar, permitiria ambicionar o perdão dos genocídios, ou que a doação da própria história à Cruz Vermelha permitiria enterrar o cachorro sem ser indigente. Penso, assim, na culpa apenas como mudança química do sistema nervoso diante do perigo ou da possibilidade do nunca mais.

Lembro que a expulsão do paraíso de Eva, mais do que culpa, gerou vida e corroborando com  Goethe, FaustoI, em versos 1806-1809, admito que: “No fim, sereis sempre o que sois. ..Por mais que os pés sobre altas solas coloqueis ..E useis perucas de milhões de anéis ..Haveis de ser sempre o que sois”.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Direito à felicidade sem Prozac



No livro “Uma aprendizagem” Clarice Lispector nos presenteia com a personagem Lóri que precisa atravessar um oceano para se ver pronta para o amor de Ulisses. Entendia que a dor era mais suportável e compreensível que aquela promessa de frígida e liquida alegria da primavera.

Emociono-me a cada página, pois Clarice escreveu após um acidente que a levou a graves queimaduras e, contraditoriamente, tão cheia de vida, delineia como o amor é feito, repaginando as escaladas,  dores e inúmeras atrocidades para a sua plenitude.

Nesse mar de coincidências e milagres escreve: “Quem é capaz de sofrer intensamente também é capaz de uma intensa alegria” e antecipa o futuro com a frase “Dia e noite não deixava apagar-se a vela  para prolongá-la na melhor das esperas”.

Na contemporaneidade, a impressão que tenho é que somos abduzidos a prenunciar a felicidade como um resultado da eleição direta frente a uma vastidão de lágrimas. Não se recomenda mais agonizar o direito à felicidade ou o acerto incerto da rotina do final desejado.  

De forma sutil, mas com inspiração siciliana, evita-se a morte súbita da tristeza darwinana que não tem mais sentido como sentimento passageiro. Exige-se o registro da felicidade avassaladora em cartório antes da terraplanagem do terreno.

Nesse sentido, a subtração da felicidade antecipa a indução ao parto ou a negação da tepidez do vento, que sem impossibilidade de abstenção carrega no colo o esperado como se fosse tão frágil como o bibelô de vidro. Transforma a dopamina no lançamento da moda em todas as estações.

Viramos escravos do prazer e não entendemos a felicidade como evento da promessa, mas apenas como merecimento do cotidiano. Não nos contentamos com o par de chinelos disponível no banheiro para se passar a deriva no final de semana. Não aceitamos a ausência de democracia e da liberdade da felicidade fora de nós mesmos. Só ficamos na porta se for a hora da pizza. Culpa-se o delivery pelo colesterol.

Não nos entendemos com o pouco a pouco da felicidade, exigimos o direito à totalidade. Temos necessidade de superlativo na lembrança do ontem e requeremos que a virada do dia seja a inesquecível virada do ano. Esperar a chamada a juízo ou o parcelamento da felicidade vira trabalho escravo, diria exploração ou pedofilia.

Penso que no futuro, após o holocausto da dor pela anestesia diária com endorfina em pó, serão encontrados vestígios da nossa antiguidade quando os embates eram feitos pela conquista tencionada da felicidade. Quando se tentava vencer a tristeza com a esperança natural e não com a artificialidade química. Havia chances de se vencer.

E, diferente de nossos pais, no futuro ser feliz não será apenas o bem-estar e a sentença não acontecerá nas pequenas causas, mas será recursal no STF, passando pelo desejo insólito de sentir novamente, mas que não será mais compreendido ou mesmo sentido. O vício nos deixará inerte.

Diria que teremos saudades de ter suportado apenas o menos possível. Talvez se repudiem o efeito de dopamina ou sensação de prazer continuo, distante das férias de verão na praia, que nos livrava da Dom Pérignon, do cigarro,  do Adderall e da Ritalina. Mas não existirá mais como disfarçar a poeira embaixo do tapete e  a desilusão do talvez.

Lembro quando criança que descrevia a felicidade como algo a acontecer com data marcada, seja pelo ganho de uma boneca nas datas festivas, pela chegada da minha avó com balas ou mesmo na esperança do fim da fome da África ao cantar ”We are the world”. Talvez se bastasse esperar um ano pelo lançamento da nova melissa.

Felicidade era acreditar que o mundo não acabaria no ano 2000 ou mesmo que não haveria a detonação da bomba atômica pelo EUA ou pela União Soviética.Se a sorte tivesse ao nosso lado, casar com o primo do namorado da melhor amiga e criar filhos estudando no mesmo colégio do passado.

Ser feliz significava ter um emprego após a faculdade, ter a primeira menstruação, beijar o cara mais lindo do colégio na frente das rivais e dançar a valsa dos 15 anos com o Charlie, integrante dos Menudos ou ir a Disney.

Felicidade não passava pela inquietação de apressar a sua chegada, era como garantir que as estações mudariam sem a necessidade de compreensão. Aceitava-se a dúvida. Aceitava-se a espera. Dividia-se o abandono. Não era preciso entender, apenas se aguardar. Tinha-se esperança no adiamento e na insuficiência do momento.

Felicidade era colecionar papel de carta sem esperar o novo lançamento, entender as disputas e os blefes nas desigualdades. Entendia-se que a beleza não era para todas e não havia dores quando não havia aptidão para esportes. Aceitava-se a frustração como amiga. Se não havia baladas no sábado à noite, era normal aguardar o domingo assistindo “Quero ser grande” de Tom Hanks sem ter que se sentir mal por não suportar o peso de crescer.

Em outros tempos o direito a felicidade não era um mantra carmico, pois entediamos que não havia como morrer antes do tempo, acreditava-se nas palavras em “Coração de Estudante” de Milton Nascimento: “Quero falar de uma coisa. Adivinha onde ela anda. Deve estar dentro do peito ou caminha pelo ar. Pode estar aqui do lado. Bem mais perto que pensamos (...)”.

Atingir a felicidade aos poucos parece que nos leva ao tédio pela ausência de satisfação evidente e talvez deixe o corpo com repulsas ao estresse. Diria que ao sentir a expectativa da felicidade, ignoram-se os legados do vício e impede-se a potencialidade para o bem que o trauma carrega.

Se não há reciprocidade para o arco-íris, não vale manter a encomenda da liberdade da chuva que não se encoraja para a chegada dos primeiros rascunhos do sol.  Tira-se o mérito do lugar da tristeza e o aviso prévio da própria morte, perdendo-se a vantagem da dor para garantir o direito vitalício à felicidade.


E no fim, se você acredita em uma felicidade cujo meio é instantâneo ou indolor, conteste, pois não é felicidade, é apenas a tristeza em dias nublados quando ainda  não foi dormir para ampliar o vazio do sempre.

domingo, 6 de maio de 2012

“Amar é faculdade, cuidar é dever.”



“[...] Ela não foi enganada por um individuo esperto, e sim pela as suas próprias expectativas. As pessoas vêem o que querem ver. Mágicos e vigaristas sabem muito bem disso. Somos ao mesmo tempo cegos e confiantes. Acreditamos em nossa interpretação do que vemos, pois agir de outra forma nos paralisaria. Somos todos cegos [...]” (Doug Magee in: Nunca diga Adeus, São Paulo: Arqueiro, 2012).

                                          Imagem: Eu e a luta conta a expectativa

Nesse final de semana li uma reportagem na Revista Época de Ruth de Aquino, denominada Justiça do Amor, à qual descrevia que um pai foi condenado a pagar à filha R$ 200 mil de indenização por abandono afetivo. Destaco que a questão não envolvia reconhecimento de paternidade, pois a filha, fruto de uma relação extraconjugal, tinha sido reconhecida quando criança.

Aquele não era um evento corriqueiro, mas um momento ensaiado contra a ausência da prática do amor e a indenização era o fim pelo mal da rejeição de 38 anos. Como tal, a motivação era contra o papel da consciência do pai, ou seja, pleiteava-se a dádiva dos sentimentos ou  o aniquilamento da própria expectativa de não ter sido desejada como filha.

Em uma análise simplicista, mas real, entendo  que a proteção paterna que desapareceu por anos não se cumprirá em um resgate tácito de reconciliação, não se estenderá em nenhum espaço de intimidade e a indenização não será a cura, nem a ferida será medicada ou anestesiada.

Amor de pai não tem descanso, ultrapassa o excesso, diria que é incontrolável. Como mãe, entendo que já amamos por comando no nascimento. Todo pai consciente atende ao protocolo de convivência, além do registro civil que permite preencher a existência diária com um tempo que não se deixa escapar. Diria conviver com a certeza não asfixiante de ter a libertação pelo amor.

O desejo por se estar com o outro deve ser espontâneo e não uma elucubração a insistência. Não é como a quimioterapia que conquista o território, destruindo células tumorais por meio da divisão celular. A rejeição não obedece ao comando semelhante à célula quando multiplica-se ou sofre a ação da droga, interrompendo o processo.

O desprezo é reticente e nunca se confundirá com a passionalidade. Não existe seqüestro de amor e a busca do objeto perdido só gerará mais incomodo. Basta pensar no divórcio quando o que fica, pensa que partilhar bens ou arrecadar além, levará o outro ao  arrependimento ou ao resgate do amor. É como insistir no erro ou a fechar a conta no bar, sem direito ao trago adicional. Chega-se a renitência da esperança burra. E depois ao irreversível, feito de destroços.

Pensar no amor dessa forma é atribuí-lo a uma condição de mercadoria que se compra, vende  ou troca ou algo que tem dono quando as fantasias se concretizam. Seria controlar o rio pela margem. Seria abrir espaço para a frustração, após usar o telemarketing para mensurar o  comportamento pós-compra de algo que não se desejou.

Não entendo a decisão legal  com uma vitória do amor, mas uma incompreensão de quem nem tudo se pode mudar pela razão. Uma decisão nunca pode impor a adestração da intimidade, pois é extrair do amor a sua condição de densa floresta em que se precisa encontrar o caminho.

Rejeito a vitimização quando o amor não se faz presente. Não entendo que nascemos com a incumbência de amar como obrigação. Não percebo o amor como uma necessidade de declarações em papel de carta. Penso no amor como uma opção e não como artigo da constituição.

Penso que o amor tem que nascer da liberdade e do livre arbítrio, principalmente, na conquista diária. Quem se ausenta nem sempre tem a noção do que poderia ter alcançado, mas a escolha é individual. Amar pode ter o seu tempo como a colheita e pode representar o mais ou menos de uma relação justa ou equilibrada.

Gosto de acreditar na  bíblia em 1 Coríntios, 13, 4-7, “o amor  é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera(...)”.  Ao  ver o amor dessa forma, pode-se entender que o amor não é resultado de um esforço ou o final de um caminho, aliás ele nem sempre é o aqui e o agora.

Um dia ouvi de uma pessoa que foi muito importante uma frase que nos últimos tempos tem me acompanhado: “não fique falando “eu te amo” o tempo inteiro, mas apenas faça a sua parte”. Naquela época não compreendi  o significado, mas hoje percebo que o amor não se resume ao posicionamento  que lembra mais o efeito de se fazer movimento, mas sim a intenção de se querer bem ao outro, sem pressão ou submissão do dia seguinte.

Nessa direção, o amor não pode ser o descanso da expectativa ou um outro desejo que não tem nome. Sentir não pode ser pouco, não se ver e exigir o resultado, mesmo depois de se deixar empoeirado em uma gaveta sem chaves, não permite a duplicação da urgência do amor. Abrir a ferida, pensando em cicatrizá-la é utópico e desnecessário à medida que  os sentimentos são independentes.

Quando penso na urgência dos amantes, só vejo o amor como embuste da sua fantasia, como uma tempestade que ameaça e já traz na sua previsão o sentimento de melancolia ou de abismo. E como olhar para bem longe de si mesmo. Essa valorização subjetiva do amor ultrapassa a virtude que ele é maior que a vida e que não alcançá-lo significa ir de encontro a não existência.

Nos últimos tempos, temos criados expectativas demais, talvez pela espera do final feliz das novelas ou dos filmes, e esquecemos que na idade média a entrega do homem se conduzia a Deus, ao Estado e resistir poderia ser  mais honroso do que receber.

Nesse amor em que se criam expectativas de cobrança, os papéis são irreais e o que dói não é o amor que não se cumpriu, mas o que se desejou. Seria a resignação da ficção e o dia seguinte nunca bastará. Vira-se dependente químico ou dinossauro da própria extinção. Seria a vitória  do esquecimento e ausência. A cobrança deve ser o menos importante, pois pode se transformar na cegueira da invisibilidade.

E nessa história lembrei-me de Clarisse em Perto do Coração Selvagem quando a protagonista Joana, após tantas devassidões, descobre a solidão como a sua companheira e entende que sem a distorção, ninguém consegue viver, mesmo quando os segundos futuros nada trazem  a medida que a verdade é cega e continuará a arder.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Viver ou morrer no efeito sombra



“Mais uma vez na batalha. Jamais saberei se será a maior luta de todas. Viver ou morrer neste dia. Viver ou morrer neste dia”. (Frase recitada várias vezes por Ottway no filme a "Perseguição – The Grey" que apresenta a luta de oito sobreviventes contra a natureza selvagem)

Assisti a esse filme no feriado e me sensibilizei frente à exposição da  natureza verossímil  do homem quando o destino o leva a uma realidade que não é a sua.  Acho que  entendo a frase como a soma das nossas escolhas. Aliás, ao comprometimento que fazemos com algumas delas, sendo a maior insígnia: a constante perda da razão diante das lutas.

De uma forma ou de outra vivemos em um mundo que não conhecemos, não entendemos, somos suscetíveis as limitações e sabotamos o nosso eu em favor da nossa sombra. Não se trata de perder um braço para o lobo, de perder a vida para inimigo ou de crescer com as pedras nos caminhos, mas de nunca ver o fim do que incomoda.  

Talvez de não perceber a ilusão da projeção no outro do que abolimos, mas que se encontra na nossa natureza selvagem. Diria em uma visão fatalista em negar a insatisfação que não se despede ou a incapacidade de se obter paz no limite da irracionalidade.

Somos demasiadamente humanos como fala Nietzsche, mas "esquecemos que a vida é um eterno retorno, porque precisamos, temos a obrigação de errar e voltar a errar quantas vezes for necessário". Alguns passos exigem mais esforços que outros, pois há um traço imperceptível quando os nossos sentidos são falhos na busca de uma rota para conviver na civilidade.

Somos dominados pelo extremo idealismo  e reduzimo-nos a música “Every Teardrop Is a Waterfall” do Coldplay: “ (...) Eu aumento o volume da música, coloco meus discos para tocar. Fecho o mundo lá fora até as luzes aparecerem. Talvez as ruas se iluminem, talvez as árvores tenham sumido. Talvez eu esteja no escuro, talvez eu esteja de joelhos. Talvez eu seja a lacuna entre dois trapézios.”  

Não entendemos o frio como resultado da estação ou que as trevas são mecânicas e se repetem, mas só as encaramos como consumadas. Somos o abismo da procura da dualidade do certo ou errado e não compreendermos o espaço da sombra e da possibilidade constante da explosão reativa do outro.

Precisamos de energias em pontos opostos para ganhar ou perder. É a eterna polaridade do Jesus e Barrabás sobre quem deve viver. De um lado, somos a farsa, a intriga, impaciência ou  a esquizofrenia.   Do outro, somos a espécie a sobreviver e, logo, não há o bem e o mal, mas a nossa sombra, sem danos e como fonte do que nos transforma, pois a natureza não tem fim.

                                                                    Imagem retirada do site: pt.wikipedia.org

Como tal, a nossa sombra perpetua o absurdo e o paraíso, nada mais é que uma hipótese fictícia. Seria como uma máscara social usada para que o mundo não te repasse o medo,  pois os horrores são semelhantes, independente do lado em que se esteja.

Em resposta, atiçamos o lobo com uma força irresistível e quando o corpo precisa descansar, aceleramos, pois temos que manter a natureza selvagem pelo tempo da promessa de introduzir poder a vida diária. Entre um ataque e outro, distanciam-se o medo e a fragilidade, perdem-se os sentidos, levando, então, à direção errada.

Penso que somos lobos que atacam para delimitar o território e arrastam os outros para o buraco vazio da toca Existe um livro chamado Efeito Sombra de Deepak, Ford e Williamsonn que contempla  o self dividido em que o mal necessita do bem e vice-versa. Seria a apologia a frase enigmática do Coringa para o Batman, "Vá em frente, me mate” diz o Batman e o Coringa fala: "Não quero matá-lo. Você me completa". 

Diria que reprimimos a própria escuridão que depois se torna presença conhecida, levando-nos a agir de maneira inesperada. Somos a semelhança do lobo e desacreditamos da boa intenção do homem, pois na luta de conquistar o nosso território, a racionalidade nos deixa como selvagens. Viramos assassinos de alma.

Já me vejo como uma alma anti-selvagem, sem limite para conviver na matilha, sem margem para findar o instinto de sobrevivência, com hipérboles no contexto que permitem as divisões. Não desejei, não planejei, perdi apenas energia e me sabotei. Na verdade, não tive estrutura para tentar evitar  e ganhei  inimigos para ser quem sou. Enfim, estou viva, mas sem chances de ser a loba alfa.

Com a lucidez do perigo, custei a me desvencilhar, mas virei prisioneira da minha caça. Conforme os dias passaram e após os atos de barbárie, recuperei a alma, mas aos frangalhos e deixei de ser tão previsível e, hoje, independente das verdades ou das convenções, acredito em vingança às claras e as escuras.

Fico a uma distância da toca, aprendi os contornos da racionalidade. Mas, agora racional, sei que não foi a maior luta.  Penso que a irracionalidade da sombra é tolice e faz o outro sair do alvo, se esconder e escapar da tormenta, mas não há alternativa, novas batalhas serão a sombra da natureza selvagem. 

A  natureza pode ser falha, mas a capacidade de resiliência deve  se institucionalizar no fim. A sutilidade pode também se findar no desejo selvagem. E justamente nesse conflito  lembrei do livro de Fernando Sabino, "Vício de Amor" quando o outro representa o perigo por ser desagradável e  no  caso do personagem a provocação era a tocaia do lobo,  o engano de ser autoritário, astuto, paciente, mesquinho, irônico, se findou após as desilusões afetivas. O personagem caminhou  através do tempo e não ouvindo o uivar dos lobos, continuou andando.

Nesse contexto não se trata de ter vencedores, mas sim de superar o medo e conviver com a sombra que também é sobrevivente.  E nos extremos, o viver passa a ser um meio. Por isso eu entendo que a natureza humana e não a selvagem sempre  fará o mal que não deseja e nunca o bem que se almeja. Paulo de Tarso ainda completa que “Todo homem sincero conhece esta tragédia”.

Ao se respeitar  a toca, considero que qualquer lobo tentará se manter  e para isso vale a pensa considerar Osho na frase: “Vivendo: viva, e viva totalmente. Morrendo: morra, e morra totalmente. E nessa totalidade você vai encontrar algum significado”.


Amigos, curtam a página do Navegando no Cotidiano ao lado. Honrada pela  leitura de todos!

domingo, 29 de abril de 2012

Após o CTRL+ALT+DEL



“[…] Há coisas que são preciosas por não durarem. […] O selvagem mutilado que nós somos sobrevive tragicamente na auto-rejeição que frustra as nossas vidas. Somos punidos pelas nossas rejeições. Todo o impulso que esforçadamente asfixiamos  fermenta no nosso espírito, e envenena-nos”. […] (Oscar Wilde in O Retrato de Dorian Gray. Editora Penguin Companhia, 2012.)

Comprei essa edição recentemente e me deparei com uma percepção diferente sobre posicionamento de Lord Henry Lotton. Em um dos diálogos ele aborda sobre o significado de se estragar vidas e considera que a única vida que se estraga é aquela da qual se apreende a evolução.  

Analisando de forma racional, independente de nossos pontos de vista morais, não temos nada com a ação do que não é esperada ou desejada pelo outro.  Entre tantas possibilidades que podemos escolher, não podemos aceitar que uma ação externa possa recuar mil passos.

O texto destaca uma situação defensiva e não açucarada. Apresenta sinais de hipocrisia em Dorian, mas entendo que é muito fácil culpar a humanidade ou quem estar ao lado pelas tragédias íntimas quando se perde o controle ou quando se fragiliza a liberdade de conduta perante os sentimentos de perda.

E então, em princípio, não se trata de ser gatuno ou puritano, mas contemplar o fato de que as pessoas esquecem o mais nobre de todos os deveres: o dever que cada um tem para consigo mesmo. E como o próprio autor revela, aceitar que: “Há sempre qualquer coisa de ridículo nas emoções das pessoas que deixamos de amar”.

                                                   Imagem retirada do site:algoritmizando.com

De certa maneira, há uma posição angustiante no CTRL+ALT+DEL, seja no amor, no trabalho, na amizade, na família, na sociedade ou em qualquer espaço em que a convivência se faz. Penso que homem não tolera a possibilidade de ser descartado ou de escapar à subserviência que o obriga a saída de cena, não aceita a desfragmentação do disco ou a eliminação de todo o lixo porque idolatra os chamados "bons momentos”.

Mas é inegável que o dia seguinte do CTRL+ALT+DEL é real e doloroso. Ainda não virou passado e não concede nenhuma alternativa ao presente. Comporta-se como uma estrada inacabada e torna o promissor futuro fora de moda.  Seria o bater na mesma tecla, indisposto sem sair do lugar do incômodo.

Quando ele é executado, há a resolução da pendência ou do que nos incomoda, o carro que não adianta mais colocar na oficina ou a desistência do recomeço. Antes do CTRL+ALT+DEL, o desprezo toma o lugar da dúvida. Esquecemos até o nascimento e assumimos as honrarias da desistência.

Penso que sobreviver depende de tornar previsível o “delete”  e a intuição deve ser condecorada  a general, pois o limite é aceitar a qualquer momento o ponto de perder algo, mesmo sabendo da dificuldade de lutar com o erro da auto-ilusão. E isto não é pouco nem é fácil.

CTRL+ALT+DEL  existe! É como o apertar o gatilho. É o final do frasco de remédios, pois quando chega não traz na nécessaire o Anador, o Mertiolate ou Rivotril e muito menos um salvo-conduto para livramos das dores do crescimento.

Imagino a chegada do “delete” naquele momento de escalada em uma montanha quando se encontra na metade do caminho, suscetível ao vento, ao passo em falso, distante do chão e na insegurança se o cume será possível. Em alguns momentos se encontra uma saliência para descanso e lá a segurança e o coração relutam em  buscar outro ponto de apoio para um novo  passo. Esse momento pode ser paralisante e a vontade é correr para o confortável e não pensar que se pode encontrar uma situação melhor lá no alto.

O CTRL+ALT+DEL é a promessa da sobremesa calórica das pessoas e não reinicia guardando os arquivos. E embora possa ser uma das mais perfeitas manifestações de nosso egoísmo ou egocentrismo, libera dopamina ou beta-endorfina.

Não existe patente a expirar do CTRL+ALT+DEL e não é fácil perceber quando ele vai chegar, mas morre quem não o aceita e insiste em relembrar os momentos de encantamento nos projetos profissionais ou pessoais. Escraviza-se quem não observa o momento reflexivo como um possível Admirável Mundo Novo de Huxley quando ele fala que se somos diferentes, é fatal que estejamos só.

Devemos respeitar a data de validade, sem tolas nostalgias. Tentar se superar e se surpreender. Sair do limbo emocional. Abrir espaço para que o novo floresça, pois resgatar o passado é bater a cabeça e, insistir, não significa encontrar a resposta. Penso que forçar relações socráticas é equivocado.

Lembro que a ovelha não machuca a própria ovelha. Ovelha confia no pastor, pois ela sabe que nada lhe faltará. Homem machuca o homem. Sua natureza nem sempre é de tolerância, ajuda e perdão. Às vezes as pessoas são mais do esperamos e outras vezes são menos. Não se trata de sorte, mas de uma razão óbvia de só se confiar mais ou menos. Esta é a lei. Todos nós somos perigosos.

De repente nos deparamos como protagonistas ou vítimas dessas três teclas que quando executadas nos permitem o obituário da esperança. É como ficar parado no TIC e TAC do relógio de cordas e deixar a espera no portão de casa. Resgatar o passado não é confiável. Não existe tragédia que possa trazer o sol em plena madrugada. Não adianta arrumar a cama. É como tentar retornar para o mesmo quarto após fechar a conta no hotel. Seria desperdício à medida que será cobrada uma  nova taxa de turismo.

E diria após o CTRL+ALT+DEL no amor, deve-se perceber a estrada à frente.  A partir desse ponto, descansar a mente  e livrar-se do martírio do teclar para atualizar novos emails, “fuçar” nas redes sociais por comentários ou fotos ou insistir no Google, utilizando-se os sobrenomes, as iniciais por qualquer notícia que acalme a ansiedade. Diria buscar abolir o amor patológico, diminuir  a velocidade em um novo amor para não aumentar  intensamente  a possibilidade de sermos novamente infelizes. Efetuar o mesmo comando do CTRL+ALT+DEL para o amor que nunca esteve no caminho de volta.

Segundo informações da Wikipédia, o CTRL+ALT+DEL no Windows abre uma janela que permite controlar os processos em atividade no momento e fechar o que está causando conflito ou instabilidade.  E, assim, sempre é bom relembrar Oscar Wilde: “A vida era demasiado curta para sobrecarregar os ombros com os erros dos outros. Cada homem vivia sua própria vida e pagava seu próprio preço para vivê-la. Só era pena que se tivesse de pagar tantas vezes por um único erro. Na verdade, pagava-se vezes sem conta. Nos seus negócios com o homem, o Destino nunca cessa de cobrar suas dívidas.”

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A metáfora da mariposa



“Não veio aqui para me contar do Jack. Eu quero a minha droga Lock! Não agüento ficar desse jeito. Vem cá, deixe eu te mostrar uma coisa. O que você acha que tem dentro do casulo, Charlie? Sei lá, acho que é uma borboleta. Não é muito mais linda que isso, é o casulo de uma mariposa, é irônico, pois a borboleta faz mais sucesso, mas a mariposa tece seda, ela é mais forte, é mais rápida. Isso tudo é muito bonito! Está vendo este buraquinho? Essa mariposa está quase nascendo. Ela está aqui dentro lutando, cavando uma saída na parede dura do casulo. Sabe, eu poderia ajudá-la, pego a faca, abro um buraco com cuidado e a mariposa estaria livre, mas ela seria muito fraca para sobreviver. Essa luta a natureza criou para fortalece-lá. Charlie: é a segunda vez que me pede a sua droga de volta, peça mais uma vez e eu a devolvo.”  (Trecho  do diálogo ente Lock e Charlie em Lost na primeira temporada)

Sou suspeita ao discutir qualquer metáfora dos episódios da série Lost, principalmente, porque sempre consegui extrair grandes lições e, principalmente, alcançar a certeza de que não existe o caminho do meio.  Se os músculos se fortalecem com o uso, imagine a alma.

Talvez a maturidade tenha me permitido apenas um milímetro de sabedoria, mas já incorporei aquela frase do autor de vida sem limites, tão cheia de calma nas lutas.... "de que a vida sem propósito não tem esperança e a que a vida sem esperança não gera fé".  Já provei na pele também a verdade de que ostra feliz não produz pérola.

Penso que se tornar forte o bastante para a vida é tão delicado quanto aprender andar de bicicleta, pois inicialmente o monte fica maior que o Everest, mas aos poucos o chão parece mais perto e do alto se treina para não mais rolar e poder enxergar as luzes. É o paradoxo de ser feliz com a resignação.

Não vejo coincidências como sorte ou destino religioso, vejo como atitude, sempre. Acho que todo mundo tem as mesmas chances de escolha. Gosto de frases poderosas como: torne-se o seu próprio limite.

Pode ser que as mudanças não levem direto as estrelas, mas sempre levam algum caminho. Não conheço um Sansão que não passou a ter cabelos, agora, cuidados por um profissional ou um Davi que não desmiolou algum gigante, levando-o ao divã. Ainda vai doer, mas de maneira bem diferente. Penso que Virgínia Woolf foi felicíssima na frase: ”Estou perdendo as minhas ilusões, talvez, para adquirir outras novas."

Comprometer com si sempre será um ato de fé na conspiração dos eventos dolorosos para o seu bem. Durante essa  semana, ganhei mais um capítulo na caminhada ao perceber que ao perder o meu telhado ganhei um novo horizonte. Raras vezes me senti tão abençoada.

Nem sempre a resposta agrada.  Mas acho que os revezes da vida são torrentes de águas em um processo em que se  aprende a ignorar as injustiças do passado, que nem sempre são reais como imaginamos, mas que sempre resultam em renascer de outra forma.  Às vezes se perde a beleza da borboleta para se alcançar a fortaleza da mariposa.

Sonhos ou pesadelos todos têm, mas só alguns conseguem mantê-los ou esquecer-los. E aí não vale culpar a realidade que insiste em fingir a indiferença ou tenta interrompê-los. Não importa o que não se deve sonhar, mas se pela manha se continua no  encalço. As agruras da vida até poderão estar escritas na lápide da borboleta, mas a maestria se faz pela Mariposa ao se livrar do que a amarra ao casulo.

O casulo da mariposa é o pernicioso, é a vaquinha do presépio, é o saco no trabalho,  é a pressão da sociedade, é o amor que não foi privilegiado, é a mentira que se fez verdade, é a maldade silenciosa, é a amizade desfeita,  é a promessa não cumprida, é  a metade da felicidade,  é a vida que não para de mudar ou é sempre o que não podemos controlar.

Isso não significa simplificar tudo com  a previsão astral, o anjo da guarda, o tarô, a pirâmide lunar, o gnomo, o duende ou mesmo banho de sal grosso. Não precisa  devorar  Anthony Robbins no livro “Desperte o gigante interior”. Não precisa se esperar tanto para se fazer a própria sorte. Basta apenas acreditar no juízo de eremita e suportar a pressão da existência.

Saber esperar é sempre difícil,  mas uma mariposa não precisa enxergar a sua luz de abajur ou fantasiar o sumiço da borboleta, pois ela deve intuir que o peso e onipotência são passageiros. O que parece milagre, pode-se  tornar real. É preciso sempre paciência, como uma dieta, ou seja, aprendendo a comer, sem se incomodar com o que fugiu do controle ou lembrando o mito que insiste em virar crença.

Sem sentimentalismo. Sem se preocupar com as respostas, mas se doando, sem exigir contrapartida do esforço, mas mantendo a fé naquele buraquinho que a  empurra para ver um mundo mais belo. E mesmo sabendo que as  estrelas não foram feitas para que as mariposas possam voar em torno delas, deve-se manter o firmamento.

Lembro da frase de Carlito Maia, publicitário, que subjugava quem se coloca como ameaçado de extinção, aliás, quem faz antecipação do fim: “Nada faça por acidente, faça tudo de propósito”. Ele acredita na mudança subjetiva quando não se  ver o que vai dar, mas muda a perspectiva para justificar a existência.

Permitir vazão ao propósito não é fácil, nem nos momentos suportáveis e muito menos  nos piores momentos. Oferecer compaixão quando se percebe o inferno é supervalorizar a esperança ou bater palma para o doido que nos incomoda, mas a ação é catalisadora, cria o movimento e desbrava-se a dureza do casulo. Chega-se ao triunfo. Logo, o caminho só chegará, desconhecendo-se a dúvida.

A proposição que nos é desagradável deve ser suficiente para desvirar aquele chinelo que nos incomoda. Devemos deixar a dependência da versão de perfeição e esquecer as espinhas no nariz que tanto nos incomoda ou nos coloca sob a conduta de vitimização de Gabriela, negando “o eu nasci assim e vou morrer assim”. 

A mudança é uma nova história. Ter esperança como uma quimera, pois esse é um esconderijo fácil demais e deve-se mover a cada passo. Reconheço que não parece simples porque está tudo entrelaçado, alias um nó só no casulo, pois o apego é sempre ao conhecido.

É provável que sair do casulo seja uma indefinição e parece-se com aquela nossa dificuldade de deixar para trás o que já não serve, mas a mutação da nossa borboleta  dever ser capaz de  enterrar a beleza e  fazer como Friedrich Nietzsche:  "(...) a fé não move montanhas (na verdade coloca montanhas onde não há nenhuma (...) (O Anticristo - Maldição do Cristianismo, Edição Integral,1992, pág. 75).